Não é ser do contra, mas ter visão diferenciada

CONJUGANDO O VERBO ZIGZAGUEAR

A revista Época publicou sobre quem preparou o discurso de Bolsonaro. Segundo a revista foi o general Augusto Heleno, ex-comandante militar da Amazônia, o chanceler Ernesto Araújo, o candidato a embaixador Eduardo Bolsonaro e o assessor internacional Filipe Martins – três deles ligados a Olavo de Carvalho e o general Augusto Heleno, que abertamente ignora o guru. Ao presidente caberia apenas e tão somente a empolgação do discurso, para que na ONU o vissem como Mito. E viram: o mito, afinal de contas é algo que não existe, em geral é apenas fruto da nossa imaginação.

VELHOS TEMPOS, NOVOS DIAS

No Brasil, pra quem não se lembra, já tivemos ótimos autores de discursos presidenciais! Os de Getúlio Vargas eram escritos por Lourival Fontes. E é de Maciel Filho, provavelmente, a famosa frase: “saio da vida para entrar na História”. Juscelino Kubistchek de Oliveira tinha Augusto Frederico Schmidt a preparar suas falas. Mas, como todos sabem, não basta um discurso trazer bons argumentos: é preciso que os argumentos convençam a plateia. E sem medo de errar podemos afirmar que não foi o efeito obtido pelo discurso de Jair Bolsonaro. Só converteu os que já estão convertidos.

MITO OU MITOLOGIA

Por outro lado não podemos dizer que temos alguma coisa contra os mitos, pois eles são frutos da nossa imaginação. Em Júlio César, fruto da imaginação de William Shakespeare, há um discurso (que se acredita Marco Antônio disse à beira do túmulo de César), excepcionalmente brilhante, e que poderia ser dito hoje mudando apenas o nome dos mitos. Por exemplo: não há qualquer certeza histórica de que D. Pedro I tenha erguido sua espada e gritado “Independência ou Morte” no longínquo 7 de setembro de 1822, mas a frase (embora provavelmente um mito), sobrevive até hoje. E se trouxermos os fatos para dias mais próximos, podemos citar o general De Gaulle, que nunca disse que o Brasil não era um país sério. Mas a frase ficou como um mito de longa duração.

MITO OU MITOLOGIA II

Depois da fala de Bolsonaro na semana passada, inúmeros comentaristas estrangeiros fizeram pesadas críticas ao discurso. Mas houve quem gostasse: como, por exemplo, o ministro da Justiça, Sergio Moro, que o presidente citou meio que a contragosto. E também o vice, Hamilton Mourão, que também meio na marra disse que achou bom. Já o chanceler Ernesto Araújo, no Twitter: compartilhou o discurso e fez um comentário que comprova ter participado de sua redação. Ele escreveu: “A verdade da soberania é a soberania da verdade”.

COERÊNCIA HISTÓRICA

O ex-presidente francês Jacques Chirac faleceu neste fim de semana após governar seu país por 12 anos (1995/2007). Ao longo de sua história política ele deixou muitas expressões características suas, que rememoramos um pouco. “Nossa história é a de uma nação da velha Europa que deu ao mundo moderno o essencial de seus valores, que nunca cedeu quando estavam ameaçados, que soube fazer disso um patrimônio de cada um. Sobre esses valores fundamos nosso prestígio, exaltamos nossa unidade. Construímos o ideal de uma sociedade de liberdade, afirmando a dignidade e a responsabilidade de seus membros”. “Se o presidente Bush realmente falou o que li, não apenas falou demais, como invadiu território alheio. É como se eu dissesse de que maneira os Estados Unidos devem agir nas relações com o México”. “Eu sou anti-caçador. Mas eu os compreendo: se uma lebre os ataca, é mesmo preciso que se defendam”.